Sem ‘cintura’ ou medo de pressão, Muricy afirma: ‘Eu sou bom pra caramba’

Fonte: Globoesporte.com

Para quem vê ou ouve as suas entrevistas, Muricy Ramalho aparece quase sempre como um sujeito ranzinza e resmungão. Mas o treinador de 54 anos discorda. Diz-se um homem que brinca nos momentos certos e que trabalha sério. Que não tem “cintura” e que não entra em esquemas. E que é bom no que faz. “Bom para caramba”, afirma.

Conhecido pelos títulos, principalmente a trinca de brasileiros com o São Paulo, o técnico do Palmeiras afirma que não é ruim no mata-mata, mas que também não é especialista em pontos corridos. Em entrevista ao GLOBOESPORTE.COM, Muricy fala que sonha em conquistar um título pelo Alviverde, clube no qual está há pouco mais de seis meses, o estresse no futebol, a vontade de parar. E afirma que é um homem feliz. “Sou feliz demais”

GLOBOESPORTE.COM – Você tem pouco mais de seis meses como técnico do Palmeiras. O que mudou depois que assumiu o time?

Muricy Ramalho – Agora eu conheço melhor o clube, as pessoas. Facilita no meu trabalho. O começo foi complicado. Demora-se um pouco para acostumar porque são clubes e diretorias diferentes. Agora está mais fácil

O Palmeiras já tem a sua cara?

Já. Os jogadores já sabem o que penso e como sou.

O torcedor palmeirense tem um perfil diferente do são-paulino. Sente muito isso?

É uma loucura, a torcida participa demais, é quente. Ela exige demais e acho legal porque quem está em time grande tem de ser cobrado. Isso não me importa, estou acostumado e gosto. Ela ficou brava no fim do ano, mas cantou na estreia do Paulista. Eu me sinto bem com isso. Por isso que o jogador tem de aguentar, ser como o Pierre, aguerrido, porque a torcida é dessa maneira.

A queda no Brasileiro ajudou a ver algumas coisas que não via antes por causa da ascensão do time na competição?

Sou frio para analisar. Foi parte técnica. Quando time cai tem de ver se tem estrutura boa, salário em dia, trabalho bom. E não tínhamos problemas com isso. Nosso problema foi técnico mesmo, foi de peças que não tínhamos para substituir. Não nos preparamos nesse sentido para um campeonato longo, como o Brasileiro. Perdemos alguns jogadores, a defesa caiu e aconteceu o que aconteceu.

No segundo semestre do ano passado, o Palmeiras teve altos e baixos. Esperava tantas emoções em tão pouco tempo?

Não foi tanto assim. Ficamos 19 rodadas na ponta. Claro que apaga porque não foi campeão e nem para a Libertadores. Foram emoções normais, estou acostumado. Chegamos na última rodada brigando pelo título. Se não tivesse a Libertadores seria uma coisa normal. Mas as pessoas dão muita importância ao torneio no Brasil. Por isso não fomos reconhecidos.

Dá importância à Libertadores?

Todo mundo dá porque é moda. Quando eu jogava não tinha importância nenhuma. Íamos com time misto. Agora, de um tempo para cá, por causa do Mundial e do dinheiro, ganhou uma importância muito grande.

Por ser o técnico com mais pontos no sistema de pontos corridos, você fica incomodado quando falam que não é bom no mata-mata?

Não me incomodo porque as pessoas que falam de futebol são muito burras. Não analisam, não veem a minha carreira. Ganhei muito mais mata-mata do que pontos corridos. Mas as pessoas não buscam a história. Meu primeiro campeonato foi a Conmebol, um mata-mata. Na China, no Pernambucano (Náutico), no Gaúcho (Internacional) e no Paulista (São Caetano) também. Eles falam que existem especialistas, mas quais são os últimos campeões da Libertadores? Repetiu alguém? É duro ouvir isso! O mata-mata é o imponderável, depende de sorte. Campeonato difícil de ganhar é o Brasileiro. Esse sim é f…! Porque são seis meses, depende de planejamento, tem de ter pensamento forte para manter o time na linha.

Brasileiro é a sua especialidade?

Eu não tenho especialidade. O que acontece é que ganhei três vezes o campeonato mais difícil. No Brasil, as pessoas dão pouca importância a quem vence. Pode escrever. Você vai ficar muitos anos na imprensa e não vai ver outro ganhar. Não vai! Esquece! Porque é muito difícil. Não é só ganhar dentro do campo. Tem muitas coisas, tem de passar por crise, aguentar muita coisa, segurar o jogador. Aí sim o cara é bom. Mata-mata depende da sorte.

Você é bom ou tem sorte?

Eu sou bom para caramba! Sou muito bom. Não acredito em sorte. Acredito em um cara competente. Sorte qualquer um tem. Agora competentes são poucos. Sabe o que acontece? Como eu ganhei muito, os caras têm de bater em quem é bom. Por isso que de vez em quando dou umas porradas em alguns de vocês. As pessoas analisam futebol sem nenhum tipo de pressão. Assim é fácil.

No São Paulo existiam pessoas da diretoria que não gostavam de você, uma certa pressão…

Não em mim. Pressionar a mim é a coisa mais difícil do mundo. Faziam pressão por fora, mas comigo ninguém vinha falar. Sentar comigo? Difícil para caramba.

Já se sentiu pressionado no Palmeiras?

Não me sinto pressionado nunca na vida porque meu trabalho é muito bom e correto. Sempre dá resultado financeiro, dá crédito ao clube. Converse com o seu Juvenal (Juvêncio, presidente do São Paulo) e pergunte para ele. Um cara não me seguraria três anos e meio de graça. Dei muitas coisas para eles, título, jogadores para a seleção brasileira, revelei atletas. Agora tem o lado ruim, que não sou social. Se eu sinto que a pessoa quer fazer as coisas para o seu lado e não para o clube, ela vai dar azar comigo. Eu não vou agradar e ela vai querer me mandar embora. Futebol funciona assim. Em todo lugar que eu vou, tenho de ganhar. Não tem essa de agradar, sair para jantar. Esse é o problema. Infelizmente existem vaidades, interesses e um monte de coisas que quem quiser se dar bem, acaba deixando passar. Mas eu não sou assim, não tenho cintura. Para mim, é o bom com o bom e o ruim com o ruim. Não me sinto bem trabalhando com um cara que é porcaria. Esse é meu lado ruim na bola.

Isso acaba prejudicando a sua carreira?

Ah, prejudica. Por isso que fico doente. Se não ganhar, os caras me tiram. Não tem acordo. Eu não durmo, quero ganhar e preciso fazer o impossível, loucuras para isso. O trabalho às vezes é minado porque as pessoas querem te ver fora. Só que eu aprendi assim.

Ainda tem contato com as pessoas do São Paulo?

Sou querido, tenho muitos amigos, mas não fico ligando. Eu fiquei três anos e meio lá e chegou um novo treinador. Não posso ficar ligando para eles, tenho de dar sossego para o cara lá (Ricardo Gomes) porque fiquei o tempo inteiro ganhando (títulos). Não ligo mesmo, para ninguém. No fim do ano que me mandaram mensagem. Mas essa é a minha maneira de ser. Saí de cena e o cara lá que tem de tomar conta agora. Nunca parei lá para nada porque não acho bom. Foi um momento legal, mas meu time é o Palmeiras.

Em entrevistas passadas, você comentou que não tem o hábito de ligar para jogadores, mas que no Palmeiras acabou fazendo isso para ajudar nas negociações. Ligou para quem?

Conversei com o Lincoln porque a diretoria pediu. Não gosto de me meter. Mas existia dificuldade. Não o convenci porque isso eu não faço. Só expliquei o porquê de eu ter vindo para o Palmeiras. E o jogador aceita porque eu tenho crédito. Liguei para o Edinho também, que já conhecia do Internacional. Mas o clube precisava que eu fizesse isso. Não vê que agora sou até garoto-propaganda? Estou fazendo coisas que nunca fiz. Mudei a minha maneira de ser porque eles precisam.

Essa mudança chegar a te incomodar?

Não porque eles precisam. Mas eu não gosto de fazer. Não é meu forte.

Não gosta de ser garoto-propaganda?

Não é que não gosto. Até na estreia (contra o Corinthians) estava horrível com aquela roupa, mas acabou aparecendo mais do que nunca, e os patrocinadores ficaram felizes. Estou satisfeito porque sei que rendeu um bom dinheiro para o clube. Não me importei em nada, pois não tenho vaidade. E nem ganho nada a mais.

O marketing do Palmeiras acredita que a sua imagem vende e te considera uma pessoa carismática. Concorda com isso?

No São Paulo aconteceu a mesma coisa e vendeu bastante (o clube criou um adesivo com o slogan “Aqui é trabalho, meu filho!”). Quando vou na TV, os caras dizem que a conversa é bom e que a audiência é legal. Não sou garoto-propaganda, mas as pessoas admiram a minha maneira de ser. Eu sou assim.

Se considera um cara mais carismático ou ranzinza?

As pessoas criaram essa imagem de mim, mas não sou ranzinza. Só sou um cara que não concordo com certas coisas e não sou vaselina. Eu exponho a minha opinião e não fico enganando as pessoas. Acho que é melhor assim. No meu dia a dia sou um cara descontraído, trato as pessoas bem. Não tenho jeitinho nem conversinha. Não sou ranzinza nem turrão coisa nenhuma. Na hora da brincadeira, eu brinco. No trabalho, sou sério.

Tem a obsessão de conquistar um título pelo Palmeiras?

Ô se tenho! Não por mim, mas pelo tratamento que tenho desde que cheguei. As pessoas me receberam bem e queria dar alguma coisa em troca. Já fui campeão várias vezes, mas queria pela satisfação de ver as pessoas felizes. É isso que me dá força para continuar forte aqui e brigar. Eu vejo que as pessoas têm ainda um pouco de insegurança em relação ao time, mas ele é forte. É só nisso que penso todos os dias, no título.

Você é feliz?

Sou demais. É que as pessoas não vivem o meu dia a dia e só veem isso, um cara p.. chato e ranzinza. Todas as vezes que apareço para falar é de futebol, que é um assunto sério. Mas sou um cara super feliz. Todo lugar que vou sou querido, tenho minha família. Só isso já basta para ser feliz. Vivo bem comigo mesmo, tenho sucesso, sou campeão e felicidade é isso.

Pensa em aposentadoria?

Eu confesso que estou um pouco cansado do futebol. Cansado de as pessoas não conversarem um pouco mais de futebol. Isso me deixa irritado. Tem hora que penso em dar um tempo. Queria ficar um pouco mais com a minha família. Preciso operar a vesícula, pois tenho uma pedra e essa não tem jeito, senão vai me arrebentar. só que tenho compromisso e preciso cumprir. Estou numa sequência muito forte. Não tenho data (para parar), mas acho que vai ser rápido. Sou um cara que tem valores que me machucam no futebol. Tem muita coisa errada e tem hora que dá vontade de dar uma parada. Mas não queria largar totalmente. Queria ser uma espécie de conselheiro de uma base. O estresse está muito grande no futebol. Quando você perde, parece que cometeu um crime. Está muito pesado.

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